Ricardo III

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Apresentação

Convém lembrar ao leitor que Ricardo III é uma das peças históricas de William Shakespeare e narra um pedaço da história da Inglaterra: está em pleno vigor a Guerra das Rosas (1455-1485), que coloca em conflito político e armado os dois ramos da dinastia Plantageneta: a Casa Real de York e a Casa Real de Lancaster. Os yorkistas e os lancastrianos formavam duas linhagens igualmente descendentes de Eduardo III. A dinastia Plantageneta governou a Inglaterra por 331 anos (de 1154 a 1485), fazendo catorze reis. Seu símbolo era um ramo de giesta (planta genista), sendo que os lancastrianos chegaram ao poder em 1399, com a coroação de Henrique IV, neto de Eduardo III, que usurpou o trono de Ricardo II (também neto de Eduardo III).

Contudo, as crises de insanidade mental de Henrique VI levaram Ricardo, Duque de York, a governar de fato, e em 1455 houve a primeira batalha entre yorkistas e lancastrianos pela coroa inglesa, com vitória dos yorkistas. Em 1461, é coroado rei Eduardo IV, filho do Duque de York. Em 1470, a esposa de Henrique VI, rainha Margaret, uma francesa e líder militar importante na Guerra das Rosas, coloca o marido de volta no trono da Inglaterra, dessa vez com a ajuda dos franceses. Eduardo IV recupera o trono em 1471, ao derrotar Margaret na batalha de Tewkesbury. Com a morte (por causas naturais) de Eduardo IV, seu filho Eduardo V nem chega a ser coroado rei oficialmente, pois seu tio Ricardo, Duque de Gloucester, igualmente da Casa de York, usurpa-lhe o trono e é coroado com o título de Ricardo III.

Com isso, yorkistas juntam-se a lancastrianos, apoiando Henrique Tudor na batalha de Bosworth contra Ricardo III, em 1485, e colocando um fim à Guerra das Rosas. Henrique Tudor (depois Henrique VII), um lancastriano, casa-se com Elizabeth de York em 1486 e, colocando um fim à dinastia Plantageneta, inaugura a dinastia Tudor no governo da Inglaterra.

É interessante observar que Henrique Tudor reivindica o trono por ser filho de uma bisneta do primeiro Duque de Lancaster. Curiosamente, o pai de Henrique VII, Edmund Tudor, era filho do segundo casamento da viúva de Henrique V; ou seja, Edmund Tudor era meio-irmão de Henrique VI por parte de mãe, o que tornava Henrique Tudor sobrinho de Henrique VI.

A leitura da peça oferece uma visão rica dos bastidores políticos (por extensão, de todos os tempos e de todas as culturas) naquilo que esses bastidores têm de mais corriqueiro: as alianças que se fazem e desfazem conforme os interesses mais prementes; as promessas e traições políticas; o ser político como um ator que se vale de objetos de cena e de personagens coadjuvantes para cativar o seu público; tudo isso e muito mais está em Ricardo III. Esse que foi rei da Inglaterra de 1483 a 1485 de fato armou complôs e tramou a morte de vários de seus desafetos.

No entanto, há que se atentar para o fato de que, ao romancear ascensão e queda de Ricardo III para o palco, Shakespeare retratou Ricardo, Duque de Gloucester, exagerando-lhe as características físicas de feiura e sua maldade pessoal. Na verdade, sabe-se que Ricardo agiu de acordo com os costumes políticos da época – decapitam-se os inimigos que podem vir a trazer dores de cabeça na arena política e, para garantir a coroa para si, matam-se os herdeiros à sua frente na linha sucessória. Mostra-se uma época em que os casamentos entre a realeza representam acordos vantajosos em termos políticos e sucessórios. Mostra-se também uma época em que é costume cuspir no rosto do interlocutor quando se quer ofendê-lo.

As intrigas políticas e palacianas ocorrem em vários níveis: entre os lancastrianos (rei Henrique VI e sua rainha, Margaret) e os yorkistas (rei Eduardo IV e seus irmãos); depois da morte de Eduardo IV, entre os defensores dos jovens príncipes, herdeiros naturais de Eduardo IV, e Ricardo e seus aliados; entre Ricardo e a rainha Elizabeth, viúva de Eduardo IV, apoiada por seu irmão e pelos filhos de seu primeiro casamento; entre Ricardo III e o Conde de Richmond (futuro Henrique VII), que lhe declara guerra, proclamando seu direito à coroa da Inglaterra.

Finalmente, espera-se que o leitor possa usufruir, ainda que de modo indireto, em língua portuguesa do Brasil, no início do século XXI, dos diálogos que William Shakespeare escreveu no fim do século XVI e que ainda chegam a nós em toda a sua força, tão carregados de maldades e ressentimentos e ódios à flor da pele e espertezas de raciocínios rápidos e maquiavélicos.

Uma observação final: as flutuações nos pronomes de tratamento, que se encontram muitas vezes em uma mesma fala, que vão do “você” para o “tu”, do “senhor” para o “você”, e vice-versa, e assim por diante, compõem uma característica do texto shakespeariano. Em geral, no texto dramatúrgico, assim como costuma acontecer na conversação humana, quando o “você” (you) passa para o “tu” (thou), isso pode estar implicando a passagem de uma fala de registro neutro ou cordial ou formal para uma fala de registro mais pessoal e menos formal (o caráter íntimo do discurso amoroso ou o caráter abusivo do discurso ofensivo). Quando essa passagem não ocorre e muda a forma de tratamento que uma personagem vem dando ao seu interlocutor, estamos diante de uma idiossincrasia do texto shakespeariano. Quando, em outras épocas, as edições procuravam sanar o texto dessas incoerências, hoje procura-se preservar as inconstâncias conforme encontradas pelos pesquisadores da história dos textos de Shakespeare nos seus manuscritos.

Espera-se que a lista de personagens a seguir, descritiva, juntamente com a árvore genealógica da sucessão de reis Plantageneta, facilite o entendimento do enredo da peça, ao apresentar os nomes históricos em grupos e algumas datas, pois são verdadeiramente dezenas de personagens, muitos dos quais têm o mesmo nome (por exemplo: Eduardo, Príncipe de Gales, filho de Henrique VI, e Eduardo, Príncipe de Gales, filho de Eduardo IV; a rainha Elizabeth e sua filha, a princesa Elizabeth; o Duque de York e seu neto, o Duque de York, sendo que os dois se chamavam Ricardo, além de Ricardo propriamente dito, Duque de Gloucester, filho de um e tio do outro).

Na lista abaixo, os números 1, 2 e 3 marcam, respectivamente, três gerações dos dois ramos da família real inglesa envolvidos na Guerra das Rosas (1455-1485):

Casa de Lancaster (símbolo: rosa vermelha), descendentes de Eduardo III

(1) Henrique VI – rei de 1422 a 1461 e de 1470 a 1471, quando foi assassinado a mando de Ricardo.

A viúva, rainha Margaret – que mandara matar Rutland, irmão de Eduardo IV, Clarence e Ricardo.

(2) Seu único filho, Eduardo, Príncipe de Gales – assassinado ainda jovem por Eduardo IV, Clarence e Ricardo, na batalha de Tewkesbury.

A viúva, Lady Anne.

(3) Henrique Tudor, Conde de Richmond, depois Henrique VII (de 1485 a 1509) – descendente indireto de Eduardo III por parte de mãe (Plantageneta da Casa de Lancaster); seu pai foi um Tudor, e Henrique VII foi o primeiro rei da dinastia Tudor. Casando-se com a Princesa Elizabeth, filha de Eduardo IV, da Casa de York, pôs fim à Guerra das Rosas, unificando os dois ramos da dinastia Plantageneta.

Casa de York (símbolo: rosa branca), também descendentes de Eduardo III

(1) Duque de York – governou de fato durante o reinado de Henrique VI, que sofria de doença mental intermitente.

A viúva, Duquesa de York – mãe de Eduardo IV, Clarence e Ricardo.

(2) Eduardo IV – rei de 1461 a 1470 e de 1471 a 1483 (morte por doença súbita).

A esposa, depois viúva, rainha Elizabeth – cunhada de Ricardo; irmã de Lorde Rivers; mãe dos jovens príncipes Eduardo e York e da princesa Elizabeth de York.

(2) Edmund, Conde de Rutland – assassinado ainda jovem, a mando da rainha Margaret, na batalha de Wakefield (ela teria embebido um lenço no sangue de Rutland e teria entregado o lenço ao pai do rapaz, o Duque de York).

(2) George, Duque de Clarence – irmão de Eduardo IV e de Ricardo, pai de um menino e uma menina (casado com uma filha do Conde de Warwick, este aliado da inimiga Casa de Lancaster).

(2) Ricardo, Duque de Gloucester – irmão mais novo de Eduardo IV e depois rei Ricardo III (de 1483 a 1485, quando é derrotado por Richmond na batalha de Bosworth).

(2) Anthony Woodville, Conde Rivers – irmão da rainha Elizabeth, tio dos jovens príncipes por parte de mãe.

(3) Marquês de Dorset e Lorde Grey – filhos do primeiro casamento da rainha Elizabeth.

(3) O jovem Príncipe de Gales (depois, por brevíssimo tempo, Eduardo V) e seu irmão, o jovem príncipe Ricardo, Duque de York – ambos filhos de Eduardo IV e da rainha Elizabeth e irmãos da Princesa Elizabeth de York.

(3) Menino (Eduardo) e Menina (Margaret) Plantageneta – filhos de Clarence.

OUTROS PERSONAGENS:

Aliados de Ricardo:

– Duque de Norfolk

– seu filho, Conde de Surrey

– Lorde Hastings

– seu padre confessor (Sir John)

– Lorde Lovell

– Sir Richard Ratcliffe

– Sir William Catesby

– Pajem

– Lorde Stanley, Conde de Derby (padrasto de Richmond)

– Duque de Buckingham

Aliados de Richmond (depois, Henrique VII):

– Conde de Oxford

– Sir William Brandon

– Sir James Blunt

– Sir Walter Herbert

– Padre, Sir Christopher Urswick

– depois, também Lorde Stanley, Conde de Derby (padrasto de Richmond)

– depois, também o Duque de Buckingham

Bispos da Corte inglesa:

– Arcebispo de York

– Cardeal Bourchier (Arcebispo de Canterbury)

– Bispo de Ely

Na Torre de Londres:

– Sir Robert Brakenbury (lugar-tenente)

– Guardião (de Clarence)

– Primeiro e Segundo Assassinos (de Clarence)

– James Tyrrel (arranja o assassinato dos jovens príncipes)

Cidadãos de Londres:

– Xerife

– Anciãos

– Lorde Prefeito

– Hastings, um passavante

– Notário

Os Fantasmas:

– de Clarence (irmão de Ricardo)

– de Lorde Hastings (aliado de Ricardo)

– de Lady Anne (esposa de Ricardo)

– de Lorde Rivers (irmão da rainha Elizabeth, cunhada de Ricardo)

– de Lorde Grey (filho da rainha Elizabeth, cunhada de Ricardo)

– do Duque de Buckingham (aliado de Ricardo, depois aliado de Richmond)

– do jovem príncipe Duque de York (sobrinho de Ricardo)

– do jovem Príncipe Eduardo (sobrinho de Ricardo)

– de Eduardo, Príncipe de Gales, filho de Henrique VI (assassinado por Ricardo)

– de Henrique VI (assassinado a mando de Ricardo)

Beatriz Viégas-Faria

arvore

Personagens

Ricardo, Duque de Gloucester (depois, Rei Ricardo III)

Duque de Clarence, irmão de Ricardo (depois, o Fantasma de Clarence)

Sir Robert Brakenbury, lugar-tenente da Torre de Londres

Lorde Hastings, nobre a serviço do rei no alto cargo de Lorde Chamberlain (depois, o Fantasma de Hastings)

Lady Anne, viúva de Eduardo, Príncipe de Gales (depois, o Fantasma de Lady Anne)

Tressel cavalheiros a serviço

Berkeley de Lady Anne

Um alabardeiro

Um cavalheiro

Rainha Elizabeth, esposa do Rei Eduardo IV

Lorde Rivers, irmão da Rainha Elizabeth (depois, o Fantasma de Lorde Rivers)

Lorde Grey, filho da Rainha Elizabeth (depois, o Fantasma de Lorde Grey)

Marquês de Dorset, filho da Rainha Elizabeth

Duque de Buckingham (depois, o Fantasma do Duque de Buckingham)

Stanley, Conde de Derby

Rainha Margaret, viúva do Rei Henrique VI

Sir William Catesby

Dois Assassinos

O guardião da Torre de Londres

Rei Eduardo IV

Sir Richard Ratcliffe

Duquesa de York, mãe de Ricardo, Eduardo IV e Clarence

Um menino filhos de

Uma menina Clarence

Três cidadãos

Arcebispo de York

Duque de York, filho mais novo de Eduardo IV (depois, o Fantasma do Duque de York)

Um mensageiro

Príncipe Eduardo, Príncipe de Gales, filho mais velho do Rei Eduardo IV (depois, o Fantasma do Príncipe Eduardo)

Lorde Cardeal Bourchier, Arcebispo de Canterbury

O senhor Lorde Prefeito de Londres

Um mensageiro

Hastings, um passavante

Um padre

Sir Thomas Vaughan

John Morton, Bispo de Ely

Duque de Norfolk

Lorde Lovell

Um notário

Dois bispos (Shaw e Penker)

Um pajem

Sir James Tyrrel

Quatro mensageiros

Christopher Urswick, um padre

O Xerife do Condado de Wiltshire

Conde de Richmond (depois Rei Henrique VII)

Conde de Oxford

Sir James Blunt

Sir Walter Herbert

Conde de Surrey

Sir William Brandon

O fantasma de Eduardo, Príncipe de Gales, filho de Henrique VI

O fantasma do Rei Henrique VI

Um mensageiro

Guardas, alabardeiros, cavalheiros, lordes, cidadãos, serviçais, soldados

CENÁRIO: Inglaterra.

PRIMEIRO ATO

Cena I – [Entra Ricardo, Duque de Gloucester, sozinho.]

Ricardo – Temos agora o inverno do nosso descontentamento transformado em verão glorioso por esse astro rei de York[1] ; e todas as nuvens que pesaram sobre nossa Casa[2] estão enterradas no fundo do coração do oceano. Temos agora as nossas frontes enfeitadas com a guirlanda dos vitoriosos; nossos contundidos escudos pendurados: monumentos de guerra; nossos duros toques de atacar transformados em jubilosas reuniões; nossas pavorosas marchas, em prazerosa música e deliciosos bailes. O espírito da guerra, de semblante implacável, desanuviou o cenho antes carregado. E agora temos que, em vez de montar corcéis de selvagens crinas para amedrontar as almas de adversários temerosos, com agilidade ele pula para dentro do quarto de uma dama e se entrega às ordens lascivas de um alaúde. Mas eu, que não fui moldado para as proezas dessas brincadeiras, nem fui feito para cortejar espelho de olhar amoroso; eu, que sou de rude estampa e sou aquele a quem falta a grandeza do amor para me pavonear diante de uma ninfa de andadura lúbrica; eu, que fui deserdado de belas proporções, roubado de uma forma exterior por natureza dissimuladora, foi com deformidades, inacabado e antes do tempo que me puseram neste mundo que respira, feito mal e mal pela metade, e esta metade tão imperfeita, informe e tosca que os cachorros começam a latir para mim se me paro ao lado deles. Ora, eu, na calmaria destes fracos tempos de paz, não encontro prazer em ver o tempo passar, a menos que seja para espionar a minha sombra ao sol e discorrer sobre meu próprio corpo deformado. Portanto, uma vez que não posso e não sei agir como um amante, a fim de me ocupar nestes dias de elegância e de eloquência, estou decidido a agir como um canalha e detestar os prazeres fáceis dos dias de hoje. Divisei planos e armei perigosos preparativos, por meio de bêbadas profecias, libelos e sonhos, para colocar meu irmão Clarence e o Rei[3] um contra o outro, em ódio mortal. E, se o Rei Eduardo for leal e justo na mesma proporção em que eu sou sutil, falso e traiçoeiro, hoje mesmo Clarence deverá ser engaiolado e muito bem vigiado, por conta de uma profecia que diz que os herdeiros de Eduardo serão por G[4] assassinados. Mergulhem, pensamentos, para o fundo de minha alma: aí vem Clarence. [Entram Clarence, sob escolta, e Brakenbury.]
Meu irmão, bom dia. O que significa essa escolta armada que acompanha Sua Graça?

Clarence – Sua Majestade o Rei, preocupado com minha segurança pessoal, designou estes guardas para me levarem até a Torre.[5]

Ricardo – Sob que pretexto?

Clarence – Porque meu nome é George.

Ricardo – Ai, ai, ai, meu senhor, que isso não é culpa sua. Ele deveria, por causa disso, trancafiar os seus padrinhos de batismo.