“por que seguras tanto?” é a interrogação dos pródigos; “por que jogas fora?” é a interrogação dos avaros. — 78. Geral ministra, a Fortuna.

 

 

[VIII]

Flégias corre com a sua barca para os dois Poetas serem conduzidos, passando à lagoa, à cidade de Dite. No trajeto encontram a Filipe Argenti, florentino, que discute com Dante. Chegando às portas de Dite, os demônios não o querem deixar entrar. Virgílio, porém, diz a Dante que não lhe falte a coragem, pois vencerão a prova e que não há de estar longe quem os socorra.

 

ACRESCENTAR eu devo, prosseguindo,
Que da torre inda estávamos distantes,
3 Quando os olhos ao cimo dirigindo,

Dois fanais brilhar vemos vacilantes,
A que outro de tão longe respondia,
6 Que mal se avistam seus clarões tremantes.

E eu de todo o saber ao mar dizia:
— “Os lumes dois por que? Por que o terceiro?
9 Para acendê-los quem razão teria?” —

— “Pela onda impura” — me tornou — “ligeiro
Quem se aguarda já vês, se não te empece
12 A vista do paul o nevoeiro”. —

Qual seta, que pelo ar veloz corresse
Da corda arremessada, discernimos
15 Tênue batel, que vir pra nós parece.

A regê-lo um arrais distinguimos:
— “Alfim chegaste, espírito execrando!”
18 Em retumbante grita nós lhe ouvimos,

— “Flégias, Flégias, estás em vão bradando!” —
Disse-lhe o Mestre — “nos terás somente
21 Enquanto formos o paul passando.” —

Como quem reconhece, e pesar sente,
Um grande engano, que se lhe há tecido,
24 Flégias assim na sua ira ardente.

Tendo Virgílio à barca descendido,
Eu segui-o: somente aos meus pesados
27 Passos mostrou ter carga recebido.

Em sendo o Mestre e eu no lenho entrados,
O lago foi cortando a antiga proa
30 Com sulcos mais que de antes profundados,

Enquanto assim corremos, eis me soa
De lutulenta sombra voz que exclama:
33 — “Quem és que em vida vens para a lagoa?”

— “Sim, venho, mas não fico nesta lama.
E tu quem és que imundo te hás tornado?” —
36 — “Bem vês: um sou que lágrimas derrama.”

E eu então: — “Fica em lodo mergulhado.
Em dor, em pranto, espírito maldito!
39 Sei quem és, se bem stás desfigurado”. —

Tendeu à barca as mãos aquele aflito,
Mas por Virgílio, que o repele presto
42 — “Com teus iguais vai, cão, te unir!” — foi dito.

Abraçando-me então com ledo gesto
Me oscula e diz: — “Abençoado seja,
45 Quem tão altivo te gerou e honesto!

“Essa alma, que de orgulho inda esbraveja,
Avessa ao bem, de raiva possuída,
48 Deixou em si memória, que negreja.

Quantos reis, grandes na terrena vida,
Virão, quais cerdos, se atascar no lodo,
51 Fama de si deixando poluída!” —

— “Mestre, grato me fora sobremodo
Vê-lo no ceno mergulhar profundo,
54 Antes de eu ter daqui saído em todo”. —

— “Antes que a margem — respondeu jocundo —
Avistes, gozarás dessa alegria,
57 Verás penar o espírito iracundo”. —

E logo ao pecador, como à porfia,
Tanta aflição causou a imunda gente,
60 Que ainda louvo a Deus, que o permitia.

Gritavam todos: — “A Filipe Argenti!” —
E a florentina sombra, se volvendo
63 Contra si, se mordia insanamente:

Lá o deixei, não mais nele entendendo.
Súbito, ouvindo um lamentar amaro,
66 Os olhos fitos para além e atendo.

E o bom Mestre me disse: — “Ó filho caro,
Stá perto Dite, de Satã cidade,
69 Que há povo infindo para o bem avaro”. —

— “Lá do vale no fundo em quantidade
Mesquitas” — respondi — “rubras discerno
72 De flama, creio, pela intensidade”. —

E o Mestre a mim: — “As faz o fogo eterno
Vermelhas, que lá dentro está lavrando
75 Como tens visto neste baixo inferno”. —

Já nos profundos fossos penetrando
De que o triste alcáçar é circundado,
78 Me estavam ferro os muros semelhando.

Mas, após grande giro, hemos tocado
Na parte, onde o barqueiro com voz forte
81 — “Saí” — gritou — “à entrada haveis chegado!”

À porta vi daqueles grã coorte
Que o céu choveu; bramiam de despeito:
84 “Este quem é que, antecipando a morte,

“Tem dos mortos no reino sido aceito?” —
Meu sábio Mestre então lhes fez aceno
87 Para, em secreto, expor-lhe seu conceito.

Contendo um pouco às sanhas o veneno
Disseram: — “Vem tu só; vá-se o imprudente,
90 Que neste reino entrou, de audácia pleno;

“Só deixe a empresa em que embarcou demente;
Tente-o, se sabe; ficarás no entanto;
93 Pois és seu guia à região nocente”. —

Imagina, ó leitor, qual fosse o espanto
Meu escutando a horrífica ameaça:
96 Não deixar a mansão temi do pranto.

“Ó Mestre meu, que tanta vez a graça
Fizeste de alentar-me o peito aflito
99 No perigo iminente e atroz desgraça,

“Não me deixes” — disse eu — “neste conflito!
E, se avante passar é defendido,
102 Ambos voltemos do lugar maldito!” —

Quem tão longe me havia conduzido
— “Não temas” — diz — “não pode ser vedado
105 O passo, que por Deus foi permitido.

“Aqui me espera e o ânimo prostrado
Fortalece e alimenta de esperança:
108 Não hás de ser no inferno abandonado”. —

O doce pai se afasta e à porta avança.
Ficando assim na dúvida e incerteza,
111 No pró, no contra a mente se abalança.

Não pude o que propôs ouvir; na empresa
Curta há sido a detença: de repente
114 Esquivam-se os precitos com presteza.

De roldão cerra a porta a imiga gente
Do Mestre à face, que, ficando fora,
117 A mim se restitui mui lentamente.

De olhos baixos, faltava-lhe a de outrora
Afouteza, e dizia suspirando:
120 “Quem me tolhe da dor a estância agora?” —

E logo a minha alteração notando
“Não te aflijas; que os óbices te digo
123 Hei de vencer que a entrada estão vedando.

“Não é nova esta audácia do inimigo;
Em mais patente porta há já mostrado,
126 Que sem ferrolho está: viste-a comigo,

“E a lúgubre inscrição lhe hás contemplado.
Deixou atrás e desce a penedia,
Pelos círc’los passando não guiado,

130 Abrir quem pode esta cidade ímpia”. —

 

19. Flégias, personagem da antiga mitologia, que incendiou o templo de Apolo, por ter este violado a sua filha. — 61. Filipe Argenti, dos Adímari de Florença, inimigo político de Dante.

 

 

[IX]

Dante pergunta a Virgílio se havia já percorrido outra vez o Inferno. Virgílio responde que já percorreu todo o Inferno e narra como e quando. Na torre de Dite se apresentam, no entanto, as três Fúrias e depois Medusa, que ameaçam a Dante. Virgílio, porém, o defende. Chega um anjo do Céu que abre aos Poetas as portas da cidade rebelde.

 

DO medo a cor, que o gesto me alterara,
Ao ver tornar Virgílio em retirada,
3 Serenou turvação, que o seu mudara.

Como escutando, espreita; que a cerrada
Névoa os ares em torno enegrecia,
6 E a vista, incerta, achava-se atalhada.

— “Mas é mister vencer nesta porfia...” —
Lhe ouvi — “se não ... socorro é prometido...
9 Oh! quanto a vinda sua é já tardia!” —

Bem vi que das palavras o sentido,
Que a declarar apenas começava,
12 Fora por outros logo confundido.

Porém maior receio me assaltava,
Na reticência auspício triste vendo,
15 Que na expressão talvez não se encerrava.

— “A esta hórrida estância, descendendo
Do limbo, pode vir quem só padece,
18 A esperança”, — inquiri — “toda perdendo?”

O Mestre respondeu: — “Raro aparece
Ensejo, que um de nós a andar obriga
21 Pelo caminho, que aos abismos desce.

“Ali, porém, já fui, quando inimiga
Esconjurou-me Ericto, que os esp’ritos
24 Constrangia a fazer c’os corpos liga.

“Des’pouco eu me finara: por seus ritos
Ao círculo de Judas fui trazido
27 Para a sombra tirar de um dos precitos.

“É o lugar mais fundo e denegrido,
Mais remoto do céu, que os orbes gira.
30 Sei o caminho: esforça-te, ó querido!

“Este paul, que o bruto cheiro expira,
A cidade circunda do tormento,
33 Onde entrar não podemos já sem ira”.

Deslembro o que mais disse: o pensamento
Da torre altiva ao cimo chamejante,
36 Que os olhos me prendia, estava atento.

Lá o aspecto se erguia horripilante
De fúrias três; de sangue eram tingidas,
39 Feminis no meneio e no semblante.

De hidras verdes mostravam-se cingidas,
Cerastes, serpes cada uma tinha
42 Por coma, em torno à fronte entretecidas.

Virgílio, que conhece da rainha
Do eterno pranto essas ancilas cruas,
45 — “Nas Érinis atenta” diz-me asinha.

“Megera à esquerda está das outras duas,
Chora à direita Aleto e fica ao meio
48 Tisífone”. — E pôs termo às vozes suas.

Co’as unhas cada qual rasgava o seio,
Com seus punhos batiam-se, em tal brado,
51 Que ao Vate me acerquei, de pavor cheio.

Olhando-me dizia: — “Transformado
Em pedra seja por Medusa; o assalto
54 Do ímpio Teseu não foi assaz vingado.

— “Volta a face; de luz o rosto falto
Conserva; que, se a Górgona encarar-te,
57 Tu não mais tornarás da terra ao alto”. —

Disse o Mestre, e volveu-me à oposta parte;
E as mãos juntando às minhas que não bastam,
60 Os olhos amparar-me quis dessa arte.

Ó vós cujas ideias não se afastam
Das leis da sã razão, vede os preceitos
63 Que destes versos sobre o véu se engastam.

Eis sobre as águas túrbidas desfeitos
Troam sons de fracasso temeroso;
66 Tremendo, as margens sentem-lhe os efeitos.

O tufão assim freme impetuoso,
Que, de ardores contrários se excitando,
69 Sem pausa fere a selva, e furioso,

Quebrando ramas, flores arrancando,
Entre nuvens de pó soberbo assalta
72 Feras, pastores e lanoso bando.

Os olhos descobriu-me e disse: “Exalta
A vista agora até a espuma antiga,
75 Onde mais acre a cerração ressalta”.

Quais rãs, divisando a cobra imiga,
Todas da água no seio desaparecem,
78 E cada qual no lodo entra e se abriga,

Tais milhares de espíritos parecem,
Em derrota fugindo ante a figura
81 Que passa; nágua os pés não se umedecem.

Movendo a esquerda mão, a névoa escura,
Que lhe era em torno ao vulto, dissipava:
84 Só este afã lhe altera a face pura.

Ser ele conheci que o céu mandava;
A Virgílio voltei-me, e mudo e quieto
87 Ao aceno, que fez, eu me acurvava.

Quantos lumes reflete o iroso aspecto!
À porta chega: ao toque de uma vara
90 Abre-se a entrada do alcáçar infecto.

— “Ó turba vil, que o céu de si lançara!” —
Ao limiar falou da atroz cidade,
93 — “Donde vos vem da audácia a insânia rara?

“Por que recalcitrais à alta vontade,
Que sempre cumpre o seu excelso intento,
96 E à dor já vos cresceu a intensidade?

“Cuidais pôr ao destino impedimento?
Cérbero, o vosso, na memória tende:
99 Trilhados inda estão-lhe o colo e o mento”.

Então pelo caminho imundo estende,
Sem nos falar, os passos semelhante
102 A quem outros cuidados a alma prende,

Daqueles, que há presentes, bem distante.
Nós à cidade afoutos caminhamos:
105 Deu-nos esforço o seu falar pujante.

Já, removido todo o pejo, entramos.
Eu, que sentia de saber desejo
108 Quanto o forte contém que franqueamos.

Como fui dentro, a tudo pronto, vejo
Campanha em toda parte ilimitada,
111 Mas não espaço às punições sobejo.

Como em Arle, onde o Rône faz parada
Ou junto a Pola, de Quernaro perto,
114 De que à Itália a fronteira está banhada,

Stá de sepulcros desigual e incerto
O solo: outros assim a estância feia,
117 Mas de modo mais agro, tem coberto.

Entre eles chama horrífica serpeia
E os abrasa inda mais que frágua ardente
120 Que arte para amolgar o ferro ateia.

Alçada a tampa, é cada qual patente.
Dali surgia um lamentar profundo,
123 De miséreo gemido permanente.

— “Ó Mestre meu, quais foram lá no mundo” —
Eu disse — “aqueles, que no duro encerro
126 Denunciam tormento sem segundo?” —

“Aqui stão os hereges por seu erro,
Com seus sequazes dos diversos cultos:
129 São mais do que tu crês em cada enterro.

“Iguais com seus iguais estão sepultos,
Uns túmulos mais que outros são candentes”.
À destra então voltou: com tristes vultos

133 Passamos entre o muro e os padecentes.

 

22-27. Ali, porém etc.: a alma de Virgílio já desceu no mais profundo do Inferno acompanhada pela bruxa Eríton. — 43. A rainha, Prosérpina. — 53-54. O assalto etc., Teseu desceu no Inferno para raptar Prosérpina. — 45.Erínis, ou as três Fúrias, filha de Érebo e da Noite. — 56. Górgona, o rosto de Medusa que petrificava quem o olhasse. — 98. Cérbero, guardião do Inferno, que foi vencido por Hércules, quando este desceu no Inferno. — 112-15. Em Aries etc., alusão aos túmulos romanos, numerosos na Provença perto de Arles e em Pola, na Ístria.

 

 

[X]

Caminhando os Poetas entre as arcadas, onde estão penando as almas dos heresiarcas, Dante manifesta a Virgílio o desejo de ver a gente nelas sepultada e de falar a alguém. Nisto ouve uma voz chamá-lo.