e é muito forte.

Como falando de algo extraordinário, o pulpeiro murmurou para si:

— Quem sabe se não é Dom Segundo Sombra.

— É ele — disse eu, sem saber por que, sentindo a mesma emoção que ao anoitecer me pregara imóvel ante o vulto significativo daquele gaúcho, perfilado em negro sobre o horizonte.

— Conheces? — perguntou Dom Pedro ao índio Burgos, sem fazer caso da minha exclamação.

— De ouvir falar, no mais. Não há de ser tão feio o diabo como lo pintam; quer me dar outra canha?

— Hum! — prosseguiu Dom Pedro. — Já lo vi mais de uma vez. Costumava vir até cá passar a tarde. Não há de ser de arriar com as rédeas. Ele é de São Pedro. Dizem que teve em outros tempos um mau enredo com a polícia.

— Terá carneado bicho alheio.

— Sim, mas parece que o bicho era cristão.Burgos ficou impávido, olhando seu copo. Uma expressão de desgosto encrespava-lhe a testa estreita de índio pampa, como se aquela reputação de homem valente menoscabasse a sua de bom na faca.

Ouvimos um galope deter-se diante da pulperia e logo o cicio persistente que usam os paisanos para aquietar um cavalo; e a silenciosa silhueta de Dom Segundo Sombra apareceu emoldurada na porta.

— Boas-tardes — disse a voz aguda, fácil de reconhecer. — Como le vai, Dom Pedro?

— Bem. E o senhor, Dom Segundo?

— Vivendo sem muitas penas, graças a Deus.

Enquanto os homens se saudavam com as cortesias de uso, examinei o recém-chegado. Não era tão grande, na verdade, mas o que fazia parecer tal, agora eu via, era certamente a expressão de força que emanava de seu corpo.

O peito era largo, as juntas ossudas como as de um potro, os pés curtos mas de maceta, as mãos grossas e encascurradas como casco de tatu. Sua tez era indiática, os olhos levemente puxados na direção das fontes, e pequenos. Para melhor poder conversar, jogara para trás o chambergo de aba escassa, pondo à mostra uma franja, tosada como crina à altura das sobrancelhas.

Sua indumentária era a do gaúcho pobre. Uma simples guaiaca rodeava-lhe a cintura. A blusa curta erguia-se um pouco sobre um "cabo de osso", do qual pendia o rebenque tosco e enegrecido pelo uso. O chiripá era comprido, talar, e um simples lenço negro estava atado ao pescoço, com as pontas divididas sobre o ombro. As alpargatas tinham sobre o peito um corte para conter o pé carnudo.

Só depois de olhá-lo suficientemente, atentei à conversa. Dom Segundo buscava trabalho e o pulpeiro fornecia-lhe dados seguros, pois seu trato contínuo com a gente do campo fazia-o sabedor de quanto acontecia nas estâncias.

— ... e na dos Galván tem umas éguas pra domar. De já há dias esteve aqui o Valério e me perguntou se conhecia alguém do ofício que lhe pudesse recomendar, pois tinha muitos animais pra atender. Eu lhe falei do Mosco Pereira, mas se lhe convém...

— Me está parecendo que sim.

— Bueno. Avisarei o guri que vem todos os dias ao povo fazer mandaletes. Ele passa sempre por aqui.

— Prefiro que não diga nada. Se puder, irei eu mesmo à estância.

— Combinado. Não quer servir-se de alguma coisa?

— Bom — disse Dom Segundo sentando-se a uma mesa próxima —, traga uma sangria, e gracias pelo convite.

O que se tinha a dizer estava dito e um calmo silêncio aquietou o lugar. O índio Burgos entrava na quarta canha. Seus olhos estavam lacrimeja n te s, sua face impassível. Então, sem motivo aparente, disse: — Se eu fosse pescador como tu, gostaria de fisgar um bagre barroso bem grande te.

Um riso estúpido e falso sublinhou seu dito, enquanto de soslaio olhava para Dom Segundo, — Parecem brabos — ajuntou — porque pulam e fazem muita bulha; mas nem tão maus hão de ser, pois não são mais do que negros!

Dom Pedro olhou-o com desconfiança. Tanto ele como eu conhecíamos o índio Burgos, e sabíamos que não havia nada a fazer quando uma fúria agressiva se apoderava dele.

Dos quatro presentes só Dom Segundo não entendia a alusão, conservando diante da sua sangria um ar perfeitamente distraído. O índio tornou a rir zombeteiro, como contente de sua comparação.