O documento mais antigo que se encontra na história relativamente aos pombos ascende à quinta dinastia egípcia, cerca de três mil anos antes da nossa era; este documento foi-me indicado pelo professor Lepsius; por outra parte, M. Birch ensina-me que o pombo está mencionado num boletim de refeição da dinastia precedente. Plínio diz-nos que os Romanos pagavam os pombos por um preço considerável: “Chegou-se, diz o naturalista latino, a tomar conta da sua genealogia e da sua raça”. Na Índia, pelo ano 1600, Abker-Khan fazia tão grande caso dos pombos, que o seu pombal tinha pelo menos vinte mil exemplares. «Os monarcas do Irão e do Turão enviavam-lhe aves muito raras»; em seguida o cronista real acrescenta:
«Sua majestade, cruzando as raças, o que ainda não tivera sido feito até então, melhorou-as extraordinariamente». Nesta mesma
época, os Holandeses mostravam-se também amadores de pombos como o tinham sido os antigos Romanos. Quando tratarmos da selecção, compreender-se-á a grande importância destas considerações para explicar a soma enorme de variantes que os pombos apresentam. Veremos então, também, como se faz com que muitas vezes as diferentes raças ofereçam caracteres monstruosos. É necessário, por fim, indicar uma circunstância extremamente favorável para a produção de raças distintas, e que os pombos machos e fêmeas se unam de ordinário para a vida, e que se possam tratar muitas raças diferentes numa mesma gaiola. Acabo de discutir muito largamente, e contudo de uma maneira insuficiente, a origem provável dos nossos pombos domésticos; se tal fiz, foi porque, quando comecei a tratar dos pombos e a observar as diferentes espécies, eu estava também pouco disposto a admitir (sabendo com que fidelidade as diversas raças se reproduzem), que derivassem todas de uma única espécie mãe, e se tivessem formado desde o momento em que foram reduzidas ao estado doméstico, como o estaria qualquer naturalista em aceitar a mesma conclusão com respeito a numerosas espécies de pardais ou de qualquer outro grupo natural 26
de aves selvagens. Uma circunstância me feriu sobretudo, é que a maior parte dos tratadores de animais domésticos, ou os cultivadores com os quais estou em contacto, ou de que tenho lido as obras, estão todos firmemente convencidos que as diferentes raças de que cada um se tem ocupado em especial, derivam de outras tantas espécies primitivamente distintas. Perguntai, assim como eu o fiz, a um célebre tratador de bois de Hereford, se não poderia fazer derivar o seu gado de uma
raça de longos cornos, ou que as duas raças derivassem de uma origem comum, e ele se rirá
de vós. Nunca encontrei um tratador de pombos, de galinhas, de patos ou de coelhos, que não estivesse inteiramente convencido que cada raça principal derivasse de uma espécie distinta. Van Mons, no seu tratado sobre peras e maçãs, recusa-se categoricamente a acreditar que
espécies diferentes, um pippin Ribsion e uma maçã Codlin, por exemplo, possam descender de sementes de uma mesma árvore. Poder-se-iam citar uma infinidade de outros exemplos. A explicação deste facto parece-me simples: fortemente impressionados, em razão dos seus longos estudos, pelas diferenças que existem entre as diversas raças, e ainda sabendo bem que cada uma delas varia ligeiramente, pois que somente ganham prémios nos concursos escolhendo com cuidado estas leves diferenças, os tratadores ignoram contudo os princípios gerais, e recusam-se
a tomar em linha de conta as leves diferenças que se foram acumulando durante um grande número de gerações sucessivas.
Os naturalistas, que sabem bem menos que os tratadores sobre as leis da hereditariedade, que não sabem mais a respeito dos elos intermédios que ligam entre si longas séries genealógicas, e que, contudo, admitem que a maior parte das nossas raças domésticas derivam de um mesmo tipo, não poderiam tornar-se um pouco mais prudentes, e não zombarem da opinião de que uma espécie, no estado natural, pode ser a posteridade directa de outras espécies?
PRINCIPIOS DE SELECÇÃO ANTIGAMENTE APLICADOS E SEUS EFEITOS
Consideremos agora, em algumas linhas, a formação gradual das nossas raças domésticas, quer derivem de uma espécie única, quer derivem de muitas espécies vizinhas. Podem atribuir-se alguns efeitos à acção directa e definida das condições exteriores de existência, alguns outros aos hábitos, mas necessário seria ser bem ardiloso para explicar, por tais causas, as
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diferenças que existem entre o Cavalo de tiro e o Cavalo de corrida, entre o Perdigueiro e o Galgo, entre o Correio e o Cambalhota. Um dos caracteres mais notáveis das nossas raças domésticas, é que vemos entre elas adaptações que não contribuem em nada para o bemestar do animal ou da planta, mas simplesmente para vantagem e capricho do homem. Determinadas variações úteis ao homem são provavelmente produzidas sucedânea e gradualmente por outras; alguns naturalistas, por exemplo, julgam que o Cardo penteador armado de ganchos, que não pode substituir qualquer máquina, é muito simplesmente uma variedade do Dipsacus selvagem; ora, esta transformação pode manifestar-se numa só
semente. Igualmente é provável que o tenha sido para o cão Tournebroche, sabe-se, pelo menos, que o carneiro Ancon surgiu de uma maneira súbita. Mas é necessário, se compararmos o cavalo de tiro e o cavalo de corrida, o dromedário e o camelo, as diversas raças de carneiros adaptadas quer às planícies cultivadas, quer às pastagens das montanhas, e de que a lã, segundo a raça, é apropriada tanto a um como a outro uso; se compararmos as diferentes raças de cães, de que cada uma é útil ao homem sob pontos de vista diversos; se compararmos o galo de combate, tão inclinado à luta, com outras raças tão pacíficas, com as poedeiras perpétuas sem nunca chocarem, e com o galo Bantam, tão pequeno e tão elegante; se considerarmos, enfim, essa legião de plantas agrícolas e culinárias, as árvores que ensombram os nossos vergéis, as flores que adornam os nossos jardins, umas tão úteis ao homem em diferentes estações e para tantos usos diversos, ou somente tão agradáveis à
vista, é necessário procurar, penso eu, alguma coisa a mais que um simples efeito de variabilidade. Não podemos supor, com efeito, que todas estas raças tenham sido sucedaneamente produzidas com toda a perfeição e toda a utilidade que têm hoje; sabemos mesmo em muitos casos, que não tem sido assim. O poder de selecção, de acumulação, que possui o homem, é a chave deste problema; a natureza fornece as variações sucessivas, o homem as acumula em certas direcções que lhe são úteis. Neste sentido, pode dizer-se que o homem criou em seu proveito raças úteis.
O grande valor deste princípio de selecção não é hipotético. É certo que muitos dos nossos mais eminentes criadores têm, durante a simples idade de um homem, modificado consideravelmente os seus gados e seus rebanhos. Para bem compreender os resultados que têm obtido, é indispensável ler algumas das numerosas obras que têm consagrado a este assunto e ver os próprios animais. Os criadores consideram ordinariamente o 28
organismo de um animal como um elemento plástico, que podem modificar a seu belprazer. Se não tivesse falta de espaço, poderia citar, a este respeito, numerosos exemplos compilados de autoridades altamente competentes.
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